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04 novembro 2019

Obesidade — do estigma social ao tratamento cirúrgico

Durante muito tempo encarada como uma perturbação do carácter e da falta de vontade, hoje, a obesidade é finalmente reconhecida como uma doença crónica. É uma doença que afeta mais de 1.5 biliões de pessoas em todo o mundo e a sua incidência não parou de aumentar ao longo dos últimos 50 anos.

Felizmente que longe vão os tempos em que a obesidade era encarada como um vício do comportamento e como um desleixo por parte dos pacientes. Hoje, começamos a compreender os mecanismos biológicos responsáveis pela obesidade e pelas alterações do metabolismo associadas a esta doença. A obesidade é uma doença crónica e terá de ser encarada como tal.

Assim sendo, importa esclarecer que a obesidade não tem cura… mas tem controlo.

O ambiente hormonal e metabólico é diferente de pessoa para pessoa, mas um mecanismo básico para o desenvolvimento da obesidade é que o organismo, de forma fisiológica, regula o seu peso corporal de equilíbrio para um peso superior ao “normal”.

É indiscutível que a única forma de se ganhar peso e manter esse peso é ingerir mais calorias do que aquelas que se gastam. No entanto, os organismos das pessoas obesas têm adaptações metabólicas que lhes permitem “poupar” energia e têm alterações hormonais que impelem as pessoas a comer, dificilmente ficando saciadas. Dizer a um doente obeso que a cura para a sua doença é deixar de comer, é como dizer a um doente com cancro do pulmão que a cura para a sua doença é deixar de fumar (ambos causaram a doença, mas a sua suspensão não é eficaz para a cura). O que a ciência das dietas restritivas reporta é que 5 anos após o tratamento os doentes recuperaram todo o peso perdido e habitualmente mais algum.

No final dos anos 70, surgiu uma alternativa empírica para tratar a obesidade – a cirurgia da obesidade. Ao longo dos últimos 40 anos, tem sido a área de maior desenvolvimento no âmbito da cirurgia e, provavelmente, uma das maiores áreas de desenvolvimento de conhecimento em toda a Medicina. A cirurgia não só permitiu o controlo a longo prazo da obesidade e das doenças associadas, mas também permitiu perceber as origens e o desenvolvimento da doença, surgindo como um passo fundamental no controlo da obesidade severa e é considerada por muitos especialistas, como o tratamento com maior benefício e maior grau de evidência no espectro de todos os tratamentos oferecidos pela Medicina moderna.

Esta cirurgia permite ao organismo efetuar uma recalibração do seu peso corporal ideal, para um peso mais baixo e mais próximo do peso normal.

Faz com que as hormonas produzidas pelo próprio organismo controlem os sinais associados à fome e à saciedade que levam a perda de peso. Não deixa de ser verdade, que após a cirurgia os doentes comem menor volume de alimentos e menor quantidade de energia. E que essa diminuição da ingestão é fundamental para o controlo a longo prazo da obesidade. Mas essa diminuição surge sem associação com o sentimento de fome. Sempre que um organismo sente “fome” vai aplicar uma de duas estratégias para conservar a sua energia: estimular o consumo ou diminuir o gasto energético. Daí que é muito frequente vermos doentes com obesidade severa, que ingerem diariamente uma pequena quantidade de calorias; bem como doentes que gostariam de ingerir uma pequena quantidade de calorias mas que reportam uma incapacidade absoluta para resistirem ao estímulo da fome.

Para que a cirurgia funcione a longo prazo, é necessário muito mais do que ser operado. É necessária uma avaliação multidisciplinar, que tente perceber as origens da obesidade em cada caso particular, para detetar sinais precoces de recidiva e para alterar e consolidar estratégias alimentares saudáveis, mesmo após o final do “efeito hormonal”. A recuperação de peso é uma realidade e apenas um acompanhamento multidisciplinar e um compromisso a longo prazo com o tratamento da obesidade, permitem um controlo a longo prazo de uma das doenças mais implacáveis (apesar de desenvolvimento lento) do século XXI.

É hora de lutar contra a obesidade e de a sociedade perceber, de forma definitiva, que a obesidade é uma doença, que não depende da vontade ou do carácter das pessoas, e que existem tratamentos eficazes, que não devem ser estigmatizados.

Redigido por Prof. Doutor Gil Faria (OM42807), Médico especialista em Cirurgia Geral no Trofa Saúde Hospital na Trofa

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